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- O SUS fundamenta-se nos princípios de universalidade, integralidade e equidade. A realidade brasileira mostra que esses princípios enfrentam desafios . Em Brusque, dois acontecimentos recentes ilustram essa tensão:
- O pronunciamento da AMA na Câmara de Vereadores denunciou a fila de espera por consultas e terapias,
- A celebração dos 124 anos do Hospital Azambuja marcada pela primeira cirurgia robótica oncológica pelo SUS.
- A análise conjunta desses eventos permite refletir sobre o sistema e acesso aos serviços.
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O desabafo da AMA
O pronunciamento realizado em 16 de junho na Câmara de Vereadores de Brusque pela presidente da Associação de Pais, Profissionais e Amigos dos Autistas de Brusque e Região (AMA), Márcia Graf Faria, trouxe à tona um debate essencial sobre as fragilidades do atendimento às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A entidade, em parceria com o SUS e a Fundação Catarinense de Educação Especial, atende centenas de crianças e adolescentes autistas. Contudo, a presidente enfatizou a angústia das famílias diante da fila de espera por consultas e terapias, especialmente na área da neuropediatria. Sua fala também problematizou a visão romantizada do autismo, lembrando que, embora haja potencialidades, trata-se de um transtorno que exige acompanhamento contínuo e especializado. O pronunciamento, portanto, não apenas descreveu uma realidade, mas também reivindicou políticas públicas mais eficazes e maior conscientização social. Esse discurso evidencia a insuficiência da rede de atenção especializada, revelando uma lacuna na efetivação da integralidade.
O complexo de Azambuja
em 29 de junho, o Hospital Arquidiocesano Cônsul Carlos Renaux (Hospital Azambuja) celebrou seus 124 anos, destacando avanços tecnológicos e estruturais que o consolidam como referência: Torre de Alta Complexidade, habilitação da UNACON e primeira cirurgia robótica oncológica pelo SUS em SC. Esses avanços posicionam a instituição como referência regional e nacional, evidenciando a capacidade de incorporar tecnologias de ponta e oferecer tratamentos sofisticados. O discurso institucional reforça a ideia de progresso e inovação, projetando o hospital como símbolo de excelência.
A crítica
A análise crítica evidencia uma contradição central: enquanto Brusque se destaca nacionalmente pela modernização hospitalar, enfrenta dificuldades elementares no atendimento especializado a pessoas com TEA. Esse descompasso reflete a fragmentação do sistema de saúde brasileiro, em que investimentos em alta complexidade não se traduzem necessariamente em melhorias na atenção básica e especializada. O caso da AMA mostra que, sem políticas integradas, parte da população permanece excluída dos benefícios do progresso.
Do ponto de vista acadêmico, essa situação pode ser interpretada à luz da teoria da equidade em saúde: não basta ampliar serviços de ponta se as necessidades fundamentais não são atendidas.
Autores como Barros e Sousa (2016) defendem que a equidade em saúde deve ser entendida como processo dinâmico, capaz de responder às necessidades específicas de diferentes grupos sociais. Já Granja et al. (2010) enfatizam que equidade significa tratar cada usuário segundo suas necessidades, priorizando os mais vulneráveis. No caso de Brusque, a ausência de especialistas para TEA contraria esse princípio.
A integralidade, princípio do SUS, exige articulação entre diferentes níveis de atenção, garantindo que avanços tecnológicos não se tornem símbolos de exclusão, mas instrumentos de inclusão.
Kalichman e Ayres (2016) destacam que ela é um dos pilares mais desafiadores do SUS, pois exige articulação entre níveis de atenção e integração de saberes e práticas. A situação da AMA revela justamente a falta dessa articulação.
Por fim, a literatura sobre fragmentação do sistema, como a tese de Cunha (2024), mostra que o SUS ainda enfrenta dificuldades em superar o modelo hospitalocêntrico, gerando descompasso entre alta tecnologia e atenção básica.
Conclusão
O pronunciamento de 16 de junho na Câmara de Vereadores e a celebração dos 124 anos do Hospital Azambuja revelam duas faces da saúde em Brusque: a luta cotidiana por acesso básico e a conquista de excelência tecnológica. A crítica acadêmica aponta que o verdadeiro desafio é integrar essas dimensões, construindo um sistema capaz de oferecer tanto inovação quanto justiça social. O futuro da saúde em Brusque dependerá da capacidade de equilibrar investimentos, garantindo que nenhuma demanda essencial — como o atendimento às pessoas com TEA — seja negligenciada em nome da modernização hospitalar.
A crítica, apoiada em autores como Amartya Sen, Bárbara Starfield e Margaret Whitehead, reforça que a verdadeira modernização da saúde depende da capacidade de integrar equidade e integralidade. Sem essa integração, avanços tecnológicos correm o risco de se tornar símbolos de exclusão, em vez de instrumentos de justiça social.
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